Johann Sebastian Bach

 

"Bach fez a síntese de tudo o que aconteceu na música antes dele e fez a profecia de tudo o que veio a acontecer depois dele."
(João Carlos Martins)


"A PEDRA QUE OS OBREIROS REJEITARAM..."

Trechos do texto escrito por Luiz Lobo

Johann Sebastian Bach (1685 - 1750) não foi, em vida, o centro do mundo musical nem na Alemanha do Norte. Esta posição foi de Telemann. Bach era famoso como o maior organista do seu tempo, virtuose do cravo e no violino, e por sua notável pontualidade no cumprimento de suas obrigações de Kantor, escrevendo a tempo e a hora grande quantidade de música sacra que o culto luterano requeria. Também foi reconhecido por suas brigas constantes com as autoridades administrativas quanto aos recursos para executá-las. (A informação é de Otto Maria Carpeaux.)
(...)

Bach sincronizou perfeitamente os dois mundos, o de Deus e o dos homens. Bebia bem, teve mulher, muitos filhos e louvou a Deus segundo as regras do contraponto e da polifonia.
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Bach, dono de órgão e orquestra, não deve ter sentido grande atração para a música vocal sem acompanhamento (e é bom lembrar que o coro a capela não tinha lugar no culto luterano) tanto que escreveu apenas cinco motetes a capela. Mas não se pode negar que principalmente Jesus meine Freude (Jesus Minhas Alegria, de 1723) seja a mais profunda expressão do misticismo gótico.

O recurso habitual da polifonia bachiana é o órgão. E Bach foi tão soberano nesse instrumento que suas obras são mais do que suficientes para formar um repertório completo, sendo dele a obra mais tocada em todos os tempos e em todo o mundo: Tocata e Fuga em ré menor (1709).

Na obra para órgão de Bach está realizada a suprema ambição da época barroca, a conquista do espaço pela música. O espaço da fé gótica.

Por obrigação de serviço, Bach escreveu durante anos, uma cantata por semana. Sabe-se de 295, das quais grande parte se perdeu por conta da devassidão de seu filho mais velho (e herdeiro dos seus papéis) Wilhelm Friedemann. Só subsistem 198. Quem ouve uma reconhece qualquer cantata como sendo de Bach, embora nenhuma se pareça com a outra.

A cantata de Bach sempre se baseia em determinado coral luterano (que fornece a base do libreto) e, quase sempre, os temas musicais a que se refere o Evangelho no domingo, no dia de festa ou na cerimônia (casamento, funeral) para o qual a cantata é destinada.

Com a cantata, Bach consegue satisfazer os ortodoxos que exigem obediência cega à letra da Bíblia, e os pietistas que cultivavam um devoção entre o místico e o sentimental. A razão de Bach é ortodoxa, mas seu sentimento é piedoso.

Há cantatas para tudo e para todos os gostos: trágicas ("sombrias como as igrejas medievais iluminadas através de vitrais", escreveu Carpeaux), lamentosas, alegres, pomposas, bucólicas, angustiadas, místicas, confissionais, luminosas, até o maior de todos os seus hinos, o Magnificat (1723, do qual faz parte o Psallite Deo Nostro), possível porque a igreja luterana do século XVII ainda não havia banido de todo a adoração a Maria. Membro da Sociedade das Ciências, em Leipzig, Bach deve ter conhecido e apreciado a filosofia de Leibniz e deve até ter aprovado as fracassadas tentativas do filósofo de promover a reunião das Igrejas separadas.

É preciso não esquecer que, para obter o título de Hofkapellmeister (Maestro da Corte Real), o maior músico do protestantismo escreveu uma missa católica, dedicada ao rei da Saxônia, convertido ao catolicismo para ser rei da Polônia. A Missa em si menor (também chamada Missa Solene) é uma obra de inspiração protestante, luterana. Parece manifestar a esperança de reunião da Cristandade e é a maior obra de Bach, "talvez a maior de toda a música ocidental", segundo Carpeaux, que chamou-a "uma catedral invisível, a mais alta que jamais foi construída".
(...)

Para Mário de Andrade, Bach "é a síntese de seis séculos musicais". Mas seu valor musical passou despercebido dos seus contemporâneos, que apreciaram o instrumentista mas consideravam suas composições maçantes. Foi preciso que Mendelssohn executasse, pessoalmente (em 1829), na mesma igreja de Leipzig onde Bach era Kantor, a Paixão Segundo São Mateus, para o compositor ser reconhecido e crescer sempre como o maior polifonista de todos os tempos.

Com Bach e a nova afinação do cravo, agora "bem temperado", deu-se um verdadeiro golpe de Estado na música, estabelecendo o império da lei de separação rigorosa de tom maior e tom menor, a pureza de cada uma das tonalidades e a possibilidade de usar na composição todas as 24 tonalidades possíveis.

O próprio Bach esgotou todas as possibilidades nos 24 prelúdios e fugas do primeiro volume do Cravo Bem Temperado e, depois, nos 24 prelúdios e fugas do segundo volume. É a maior obra pianistica de todos os tempos, que Hans Von Buelow chamou de Velho Testamento do Piano (sendo o Novo Testamento as sonatas de Beethoven). Para Carpeaux "é o manual da técnica do instrumento, seu breviário didático, e é obra fundamental da harmonia moderna".

Os Concertos de Brandenburgo revelam claramente mais um aspecto característico do gênio de Bach: a tendência de esgotar todas as possibilidades de um gênero, todas as soluções possíveis de um problema musical, produzindo as realizações mais monumentais, definitivas e, ao mesmo tempo, manuais práticos para o ensino do gênero ou problema.

A última obra de Bach é a Kunst der Fuge (Arte da Fuga, 1748 - 1750). Um verdadeiro monumento da sua arte polifônica, quando um único tema é explorado para fornecer todas as formas possíveis do gênero. O grande Ricercare é a maior fuga de toda a história da música e todas elas formam um esquema arquitetônico, uma construção onde ficou faltando a torre, a harmonização do coral Vor deinem Thron treet'ich hiermit (Apareço Perante Teu Trono), interrompida porque Bach foi chamado a comparecer perante o trono de Deus.

Descendente de uma família cujos membros todos eram conhecidos como músicos desde o século XV, Bach teve educação religiosa severa, formação erudita, foi violinista na corte de Weimar, organista na igreja de Arnstadt, não se tornou sucessor de Buxtehude porque não quis casar com sua filha (como era costume na época). Suas "inovações audaciosas" nos prelúdios de órgão fizeram-no perder o emprego em Arnstadt. Organista da igreja de Muehlhausen (na Turígia) também ficou desempregado porque deu razão aos pietistas contra os ortodoxos. Maestro na corte de Koethen (onde o calvinismo do príncipe não aturava música litúrgica) dedicou-se inteiramente à música instrumental.

Seu casamento com uma prima, Bárbara, é motivo de escândalo. Quando ela morre, casa com Ana Magdalena. Tem muito prestígio social como Kantor da igreja de São Tomás, em Leipzig, mas não é reconhecido pelos músicos do seu tempo que não compreendem a "antiquada música polifônica". Seus próprios filhos, todos músicos, abandonam a memória do pai.

Místico estático mas homem dos prazeres substanciais da vida, homem de Deus e burguês de vida confortável, profeta e pai de 15 filhos, poeta abstrato e homem irascível e permanentemente envolvido em brigas e contendas judiciais, autor da maior obra musical de todas as obras mas pouco preocupado em preservá-la (os originais dos Concertos de Brandenburgo foram escritos em papel de embrulho de uma loja comercial), Bach não se considerava um gênio musical e sim um artesão.

Bach nunca escreveu para exprimir-se e trabalhava sob encomenda da igreja, da corte ou para o ensino. Depois da morte foi rapidamente esquecido, até ser ressuscitado por Mendelssohn, quase 100 anos depois.

Ele julgava-se destinado a reformar fundamentalmente a música sacra da Igreja luterana. Não conseguiu realizar o seu objetivo. Rejeitado pelos contemporâneos, esquecido até pelos filhos, sobreviveu, ressuscitou, veio ocupar o primeiro lugar na história da música.

Como escreve Carpeaux, consumou-se a profecia bíblica (Mateus, XXI, 42): "A pedra que os obreiros rejeitaram, tornou-se pedra fundamental".



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